CANÇÃO DE MERCÚRIO
Quando o Sol nasceu a luz andou lado a lado largando rastro perene pulsante totem e ruído de sirene
Quando a Lua nasceu a estrela da manhã derreteu gota a gota transbordando verde viscoso na taça de ouro que o Sol chorou quando morreu
O PEQUENO VERME NOTURNO
ele viaja & se movimenta pela Terra como minhoca no húmus verme que se arrasta no interior da goiaba
o táxi cobrou o preço da noite o jantar custou o preço da noite a noite não teve preço mas ofereceu algo
MIRAGEM
passeiam os cabelos os camelos pastando ardendo a água & a areia enquanto acordo de profundezas verde & escamoso como uma sereia serei-a?
SANGUE DE ARCO-ÍRIS
O pássaro não vê diferença: espingardear a voz, planar cabeças de loucura... quero cavar um buraco no quintal guardar dentro amor imperturbável lágrima potável, desce, sobe e explode na lua. Instruções de uso: sangre - respire - voe para engolir o céu - a tudo deixe transparecer: sangre. Sangre. Então, imagine o mar secando, abra bem a boca & mate sua sede se você for um pássaro absurdo, resplandecerá a ausência brilhando como um sol escondido na gruta inexplorada de prazeres-subterfúgio. Beba um raio solar ao amanhecer assim iluminará enfim a sublime e parda tristeza. Ela se irrita com tamanha certeza: que fazer? Ela afoga meus olhos na pia de mármore, imenso escândalo do sexo instalando-se com luvas. Amor banhado a ouro. Amor: sempre um tiro de canhão em cenário de calmo desespero. Agonia de secular retração, anos tecidos a fios de indecisão. Amor de pássaro obsceno. Esta é a voz do símbolo ultimal, a que lhe pede: "sangre, e faça com que seu sangue coagulado seja um arco-íris, seja um arco-íris"
MEDIEVAL
eu te disse, sou medieval, visto cinza & negro, um capuz & um manto me cobrem o corpo, me fazem morto, me lembram de esquecer. Carrego pedras de gelo por fora & uma floresta de espelhos quebrados por dentro.
JATOS
Eis que desabrocham dias como flores de aroma anterior ao ardor da atualidade. Desfio fio infindo de pensamento. Lavarei o amor que sinto como quem lava uma estátua grega recém-descoberta no fundo mar: repleta de algas & sargaços, bela e difusa, o jato forte da mangueira descortinando a beleza perene, só assim este amor não se turvaria de medos ou segredos. Luz amarela que derrete, calor ameno que conforta. Eu não assimilei o começo, então não entendi o fim. Hoje tateio a noção de que o que não tem começo não tem fim, o fim é apenas a confirmação de que nada começou.
MITOS
ela tem o planeta terra nos olhos e quando chora sua chuva de orvalho queima minha mão seu doce líquido corrosivo chuva ácida ele tem meteoritos nos olhos e quando cospe flores oculares explode pulsares de sementes caóticas plantio ácido ela tem a fauna de outrora no ventre mas se serpentes transitam em sua borda lambe minha boca suave seiva encantada maçã ácida ele tem um lago japonês no ventre e se repousa entre duas montanhas implode lamentos em plena ausência de vento ácido momento
INÚMERAS IMPLOSÕES
o tempo vai nos dilacerar, o tempo vai nos consumir compraremos espelhos e mais espelhos: nos olharemos inevitavelmente nos decompondo dizendo um ao outro está tudo bem agora atores à espera do ato final atletas aguardando o último tempo esquecidos das gargalhadas suaves que nos demos dos arrojos de percepção que nos presenteamos encarcerados no grito das nuvens mortuário do tempo com nossas lágrimas de sacarina nossa energia de anfetamina que algum guardião celeste qualquer faz questão de não perdoar
TELEFONE
eu te sinto mais perto se te ouço ao telefone: talvez por estar longe da tua figura e isso faça minha timidez morrer elétrica pelos cordões da caixa mágica: eu me conduzo aos fios, carrego a eletricidade no corpo-cérebro: você é uma tecelã da mente que trabalha palavras como quem colhe flores à margem de um rio: teus olhos visualizando como se tocando ao desnudar arranhões que cultivam o hadit do ser, onde vejo que por a tudo voz é ou parece saída de uma caixa de sons: minha cabeça roda & termina na palma da tua mão: tecelã de atitudes que busca implausível estrago: tenho ódio: me dano & sinto a ira: arrebento a caixa mágica
O OLIMPO
injeta-me teus suados quasares de idéias, atleta teus músculos graves a seda de tuas pernas duas pernas a malha branca a fina tranca entre o sexo & o seio o contorno dos ombros a queda o plano mero engano o movimento de tuas pernas me injeta o entreabrir de teus grandes lábios me injeta o andrógino arfar de teus doces pulmões me injeta
A FOME
não existe barco naquele rio nenhum navio ancorado na floresta não há amoras no vento negro nem cortinas num quarto vazio nada de sopros nos cílios apenas o estômago em convulsão enquanto a fome avança, tranqüila
ZEUS
Na escuridão da noite guardei o cão dourado
ainda por nascer as abelhas da terra alimentaram-no com mel de sol e o senhor dos infernos já não mais como antes. Como lobo a rosnar ascendeu e onde ele estava não existia um deus. A águia desde então voa no céu carregando em seu bico platinado o machado de duas lâminas